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Fantasia Prévias

Uma Melodia de Sombras e Ruínas: leia os primeiros capítulos!

Ilustração da capa do livro Uma Melodia de Sombras e Ruínas mostrando a personagem Karina.

Leia em primeira mão os capítulos iniciais desse livro best-seller do New York Times!

Se você ainda não conhece essa história, leia a sinopse completa:

Para Malik, o festival de Solstasia é a oportunidade perfeita para escapar das marcas que a guerra deixou em sua terra natal e buscar um recomeço na próspera cidade de Ziran. O que ele não esperava é que um espírito maligno sequestrasse uma de suas irmãs na entrada da cidade e o forçasse a fazer um acordo fatal: para recuperar a irmã, Malik precisa matar Karina, a princesa herdeira de Ziran.

O problema é que Karina também tem ambições fatais. Sua mãe, a Sultana, foi assassinada; a corte está saindo de controle e o tempo até o festival de Solstasia se aperta como uma corda em seu pescoço. Tomada pelo luto, a princesa decide ressuscitar a mãe através de um ritual arcaico cujo ingrediente principal é o coração de um rei. Por sorte, ela sabe exatamente como conseguir um: casando-se com o vencedor do lendário torneio do Solstasia.

Quando Malik trapaceia e consegue entrar no torneio com a intenção de aproximar-se de Karina, os dois jovens entram em uma corrida contra o tempo e uma rota de destruição mútua. Com a conexão entre eles cada vez mais intensa, e forças malignas começando a despertar, qual dos dois conseguirá vencer a morte?⠀

“Uma Melodia de Sombras e Ruínas”, escrito pela autora Roseanne A. Brown e traduzido por Solaine Chioro, tem 528 páginas, acabamento em capa dura e foi lançado em 31 de agosto! Compre em até 10x sem juros, com frete grátis para todo o Brasil e brindes exclusivos clicando aqui.


CAPÍTULO 1

MALIK

— ABRAA! ABRAA! Venham, aproximem-se! Uma história está prestes a começar!

A voz da griô entoou pelo ar escaldante do deserto, atravessando o curral dos jumentos e as caravanas ornadas em joias que preenchiam o acampamento às margens do Portão Oeste da cidade-estado de Ziran. Por instinto, Malik inclinou o corpo na direção do chamado da contadora de histórias, apertando com força a alça da bolsa que lhe cruzava o peito.

A griô era uma mulher baixa e corpulenta, da altura do ombro de Malik, e com um enorme sorriso aberto no rosto. Tinha tatuagens brancas, compostas por símbolos que Malik não compreendia, espalhadas em espiral por toda a pele negra escura.

— Abraa! Abraa! Venham, aproximem-se! Uma história está prestes a começar!

O ritmo contínuo do djembê passou a acompanhar o chamado da griô e, em minutos, um público considerável se formou ao pé do baobá onde ela estava. Também era o momento perfeito para uma história; quando o crepúsculo encontra a noite, e os poucos raios de sol ainda brilham no céu, mas o mundo sob ele escurece. A audiência se sentou sobre caixotes virados e entre carrinhos de carga desgastados, conferindo o céu a cada minuto, procurando o Cometa Bahia, mesmo que a chegada dele e o começo do festival de Solstasia fossem dentro de algumas horas.

A griô chamou pela terceira vez, e Malik deu mais um passo na direção dela, e então outro. Quando o povo de Ziran ocupou a terra nas Montanhas de Eshra, os griôs foram os primeiros a partir, mas os poucos que ficaram deixaram marcas na alma de Malik. Ouvir um griô era entrar em um novo mundo, um em que heróis dançavam pelos céus com espíritos os acompanhando e em que deuses moldavam montanhas com o balançar
dos pulsos. O corpo de Malik parecia avançar em um acordo consigo mesmo, preso no chamado hipnótico da voz da mulher.

Ele e as irmãs estavam viajando pelo Deserto Odjubai, havia dois meses, sem nenhuma companhia além do rangido do fundo falso da carroça em que se escondiam, do uivo do vento passando pelas dunas e do choro dos companheiros refugiados. Certamente não havia perigo em ouvir apenas uma história e se deixar esquecer, só por um momento, que não tinham uma casa para a qual retornar e nenhuma…

— Malik, presta atenção!

Um aperto firme segurou a gola de Malik, e ele cambaleou para trás. Nem mesmo um segundo depois, uma pata encouraçada do tamanho de uma vaca pequena pisou exatamente no local onde Malik tinha acabado de sair. Uma sombra cobriu o rosto dele quando o chipekwe passou por ali, levantando areia e pedregulhos a cada passo estrondoso.

Malik ouviu histórias sobre os chipekwes quando era criança, mas nenhuma delas havia descrito precisamente o tamanho gigantesco da criatura. Criado para caçar elefantes na savana, o topo da cabeça chapada dela poderia facilmente alcançar o teto da antiga casa na fazenda da família de Malik,
e o chifre pontiagudo saliente no nariz da criatura era tão grande quanto o rapaz.

— Você está tentando se matar? — reclamou Leila, enquanto a sombra do chipekwe passava. A irmã mais velha do garoto o encarou, torcendo o nariz. — Presta atenção por onde anda!

A realidade voltou a Malik como pingos d’água de uma torneira enferrujada e, aos poucos, o chamado para uma história foi sendo afogado em meio aos gritos dos carroceiros para suas feras, às melodias dos músicos entretendo o público com histórias de Solstasias passados e outros barulhos do assentamento. Muitas pessoas pararam e encararam o garoto que quase morreu pisoteado, e o peso desses olhares fizeram o rosto de Malik arder
de vergonha. Ele torceu o couro gasto da alça da bolsa até que prensasse a carne da própria mão. Sombras tremularam em sua visão periférica, e Malik apertou tanto os olhos que a cabeça doeu.

— Me desculpa — ele balbuciou baixinho.

Uma pequena cabeça cercada por uma nuvem de cachos saltitantes e escuros apareceu atrás de Leila.

— Você viu? — exclamou Nadia. A boca da irmã mais nova se abriu em surpresa. — Foi como… como se ele tivesse trezentos mil metros! Ele está aqui por causa do Solstasia? Posso tocar nele?

— É provável que esteja aqui pelo Solstasia, porque todo mundo está aqui pelo Solstasia. E não toque em nada! — respondeu Leila, virando-se para Malik em seguida. — E você, entre todas as pessoas, deveria saber que não deve ficar vagando por aí desse jeito.

Malik apertou a alça da bolsa com ainda mais força. Não adiantava explicar à irmã mais velha o poder que o chamado para uma história tinha sobre ele. Enquanto ele era propenso a sonhar e divagar, Leila preferia lógica e planejamento. Eles tinham visões de mundo diferentes, de muitas maneiras.

— Desculpa — repetiu Malik, com os olhos presos firmemente ao chão. As marcas do sol nos pés dentro das sandálias o encararam de volta, exibindo as bolhas formadas pelos meses viajando com calçados que não serviam para isso.

— Bendito Patuo, me dê forças! Levar vocês dois para qualquer lugar é como criar duas galinhas sem cabeça. — Malik fez uma careta. Leila devia estar brava de verdade se estava invocando o nome da divindade protetora dela.

Ela estendeu a mão esquerda para Malik, mostrando o emblema na palma que a marcava como “Alinhada à Lua”.

— Vem. Vamos antes que um elefante sente em você.

Nadia soltou risinhos, e Malik se irritou com a tiração de sarro, mas, ainda assim, aceitou a mão de Leila. A outra mão, ofereceu para Nadia, que a segurou sem hesitar.

Ninguém se importou com Malik e as irmãs se esgueirando pelas dezenas de milhares de pessoas que se reuniam em Ziran para o Solstasia. Refugiados existiam aos montes no assentamento próximo a Ziran, e dezenas chegavam todos os dias; três novatos, jovens e desacompanhados como eram, dificilmente faziam alguma diferença.

— Solstasia afeshiya! Solstasia afeshiya!

O grito vinha de todo e nenhum lugar, um chamado de celebração em um idioma mais antigo que a  própria Ziran. Em algumas horas, o Cometa Bahia, nomeado em homenagem à primeira sultana de Ziran, apareceria no céu por uma semana inteira, marcando o fim da era atual e o começo da próxima. Durante esse tempo, o povo de Ziran realizava um festival conhecido como Solstasia, em que sete Campeões, um para cada divindade protetora, encarariam três desafios. Através do vencedor, Ziran descobriria qual deus deveria reger a próxima era.

— Imagina todo desfile, festa à fantasia e festival pelo mundo acontecendo ao mesmo tempo — dissera Nana uma vez, e, embora a avó estivesse em um campo para refugiados a centena de quilômetros, Malik quase conseguia sentir o calor das mãos negras enrugadas nas bochechas dele e ver os olhos escuros dela brilhando com um conhecimento que ele nem poderia compreender. — Até mesmo isso não é nada comparado a uma hora do
Solstasia.

Mesmo com Leila não caminhando exatamente rápido, em minutos, o suor escorreu pelas costas de Malik e a respiração ficou mais rápida, saindo em rajadas dolorosas. As viagens tornaram o corpo dele, já frágil, em uma carcaça mais enfraquecida do que era, e agora manchas roxas e verdes dançavam diante dos olhos do rapaz a cada passo que ele dava sob o sol do deserto. Eles iam em direção às seis plataformas idênticas de madeira
que ficavam em uma larga clareira onde oficiais e soldados de Ziran revistavam as pessoas entrando na cidade. Cada plataforma era o dobro do tamanho de uma carroça de caravana, e viajantes, mercadores e refugiados vivendo no assentamento se misturavam ao redor delas, todos tentando passar pelo posto de controle chamando o menos possível de atenção para si

— Comerciantes e grupos de cinco ou mais pessoas para direita! Quem estiver sozinho ou em grupos de quatro ou menos pessoas para esquerda — explicou um oficial. Embora os soldados de Ziran perambulassem com as armaduras prata e bordô, Malik não viu nenhum Sentinela. Ótimo. A ausência da elite guerreira de Ziran era sempre um bom sinal.

Malik levantou o olhar para a estrutura imponente diante dele. Diferente do chipekwe, as histórias antigas não desvalorizaram o tamanho de Ziran. A Muralha Externa se estendia até onde os olhos podiam ver, desaparecendo em uma miragem reluzente na linha do horizonte. Sete camadas de arenito
antigo e tijolo de barro agigantavam-se sobre o assentamento, com o Portão Oeste, um desvio marrom escuro e no formato de ferradura, no muro vermelho.

Para tirar vantagem da multidão empolgada, vendedores armaram barraquinhas ao longo do caminho até a cidade, gritando, cada vez mais frenéticos, promessas para qualquer pessoa que passasse. Mercadorias de todos os tipos estavam espalhadas nas prateleiras: imagens feitas de ébano da Grande Mãe e das sete divindades protetoras, cornetas de marfim que berravam mais alto do que elefantes, amuletos tilintantes para afastar espíritos e o povo sombrio.

Embora clientes povoassem as barracas, a maioria ia embora sem encostar em nada; seres sobrenaturais, conhecidos como o povo sombrio, eram histórias sussurradas em noites escuras, nada mais. Malik sabia por experiência que os amuletos nunca funcionavam e muitas vezes deixavam a pele com coceira e esverdeada.

Ao pensar no povo sombrio, Malik olhou por cima dos ombros de novo, mas havia apenas pessoas atrás dele. Tinha que relaxar e parar de agir como se monstros imaginários fossem agarrá-lo a qualquer segundo. Tudo com que precisava se preocupar naquele momento era em como entrar em Ziran com os documentos forjados em sua bolsa. Depois, ele e Leila procurariam trabalho em uma das milhares de vagas que estavam abertas por causa do Solstasia, e ganhariam dinheiro o suficiente para também conseguirem documentos para a mãe e Nana.

Mas e se não conseguissem?

A respiração de Malik ficou mais pesada ao pensar no assunto, e as sombras no canto dos olhos dançaram de novo. Enquanto o mundo flutuava ao redor, ele fechou os olhos e repetiu o mantra que a mãe havia ensinado quando os ataques de pânico dele começaram anos atrás.

Respire. Foque no aqui. Foque no agora.

Contanto que não chamassem atenção para si mesmos, não olhassem ou falassem com ninguém, eles ficariam bem. Era apenas uma multidão. Passar por ela não poderia matá-lo, mesmo que a palma das mãos dele estivessem escorrendo de suor e o coração ameaçasse pular para fora do peito.

— Ei! — Nadia puxou a calça de Malik com a mão livre e apontou para a cabra de pano cuja cabeça saia pela gola do jelaba desbotado dela. — A Gege quer saber se eu posso ficar com sua bolsa se o chipekwe pisar em você na próxima vez.

Apesar do pânico retorcendo o estômago, Malik abriu um
pequeno sorriso.

— A Gege é uma má influência. Você não deveria dar ouvidos a ela.

— Gege disse que você ia falar isso — murmurou Nadia, com o tipo de seriedade que apenas uma garota de seis anos consegue evocar, e Malik riu, sentindo a tranquilidade se espalhar por ele. Não importava o que acontecesse, ele tinha suas irmãs. Enquanto estivessem juntos, tudo ficaria bem.

Eles pegaram o lugar na fila atrás de uma mulher equilibrando uma cesta de mamões na cabeça, e só então Leila soltou Malik.

— Chegamos! Agora é só esperar.

Parecia que esperariam por um bom tempo. Embora o assentamento estivesse alvoroçado, a fila para entrar de fato em Ziran estava dolorosamente lenta. Alguns grupos à frente deles já tinham até montado acampamento para passar a noite e não pareciam ter pressa de seguir adiante.

Nadia franziu o nariz.

— Podemos ir ver as barracas?

— Não — respondeu Leila enquanto alisava uma dobra do lenço azul na cabeça dela. — Mas a fila nem está andando!

— Eu disse “não”.

Nadia bufou, e Malik pôde sentir o mau humor fermentar. Embora Leila tivesse boas intenções, lidar com crianças pequenas não era o forte dela, então foi Malik que se curvou para ficar na altura dos olhos de Nadia e apontou para a Muralha Externa.

— Você está vendo?

Nadia levantou a cabeça rapidamente.

— Vendo o quê?

— Lá em cima, no topo da torre mais alta.

Até mesmo a Muralha Externa havia sido decorada em honra ao Solstasia, com faixas penduradas nas torres, representando cada uma das sete divindades protetoras: de Gyata, a Leoa, que regia o Alinhamento do Sol, até Adanko, a Lebre, protetora de Malik, que regia o Alinhamento da Vida.

Cada uma das divindades protetoras regia um dia da semana, e quando uma criança nascia, a parteira marcava o emblema de um dos sete deuses na palma esquerda dela, para que qualquer pessoa soubesse o seu Alinhamento. Era dito que o Alinhamento de uma pessoa decidia todos os maiores momentos de sua vida, desde qual trabalho lhe era mais apropriado até com quem estava destinada a passar o resto da vida.

A boca de Nadia se abriu quando ela bateu o olho na faixa do Alinhamento do Sol pendurada em uma parede.

— É o meu emblema!

— É sim — disse Malik. — Gyata está  observando todos os Alinhados ao Sol para ver quem deve ser o próximo Campeão do Sol. Mas ela não vai te escolher se você chorar.

— Eu não vou chorar! — Nadia pegou um galho do chão e o brandiu no ar. — Então, quando Gyata me escolher como Campeã, vou morar no palácio com a sultana, e vou comer tudo o que quiser, e vou pedir para a princesa Karina dizer que é contra a lei me fazer ficar em filas de novo!

— Acho que princesas não fazem leis. Nadia bufou novamente, e não pela primeira vez, Malik ficou surpreso com o quanto eles se pareciam; o cabelo preto e ressecado que batalhava contra qualquer escova que se aproximasse, a pele negra em tom amarelado, os olhos escuros e grandes que pareciam surpresos não importava qual fosse o humor deles no momento. Olhos lunares de coruja, papai costumava chamar e, por um segundo, Malik sentiu tanta falta do pai que quase não conseguiu respirar.

— Bem, o que você faria se encontrasse a princesa? — Nadia quis saber.

O que ele faria se conhecesse a princesa Karina? Malik afastou a lembrança dolorosa do pai que havia perdido para pensar sobre a pergunta.

Uma das maiores vantagens em se tornar o Campeão do Solstasia era viver no palácio real durante o festival. Embora Malik nunca fosse admitir em voz alta, ele havia sonhado uma ou duas vezes em se tornar o Campeão e representar o próprio Alinhamento para todo o mundo ver. Mas era uma fantasia vã, já que ninguém de Eshra era escolhido como Campeão desde a invasão de Ziran, há mais de 250 anos.

Além disso, os boatos eram de que a princesa Karina Alahari era uma garota volátil e irresponsável, que só era herdeira ao trono porque a irmã mais velha tinha morrido em um incêndio há quase dez anos. Princesa ou não, Malik não tinha interesse em alguém assim.

— Não acho que a princesa e eu nos daríamos muito bem — disse Malik.

Nadia bufou.

— Você é um chato! Ela deu um soco no estômago de Malik, e ele se curvou, exagerando a dor que sentia.

— Ai! Eu me rendo! — gritou ele. — Se eu te contar uma história, você para de tentar me matar?

— Eu já ouvi todas as suas histórias.

Malik afastou os cachos dos olhos de Nadia. Ela sempre havia sido pequena para a idade; mas, depois de meses de má nutrição, ela estava tão minúscula que Malik às vezes temia que uma brisa mais forte pudesse levá-la para sempre.

— Já ouviu aquela sobre a menina na lua?

O queixo de Nadia caiu.

— Tem uma menina na lua?

Malik assentiu, retorcendo o rosto em uma seriedade cômica.

— Sim. O irmão mais velho dela a colocou lá porque ela não parava de fazer careta.

Ele pontuou a última palavra dando um peteleco no nariz de Nadia, recebendo um risinho indignado como resposta. Por papai ter ido embora menos de um ano depois do nascimento de Nadia, foi Malik que tomou conta dela enquanto a mãe, Nana e Leila trabalhavam no campo. Ele a conhecia melhor do que ninguém, sabia que ela largaria tudo para ouvir uma história, assim como ele. Na carroça, Malik a distraiu com fábulas atrás de fábulas sobre a heroína trapaceira, Hyena, e quando não tinha mais nenhuma para contar, ele criava a própria versão de todas as lendas que absorveu durante os anos. Ele tecia histórias até ficar sem voz, qualquer coisa para manter Nadia afastada do peso da situação deles.

Mais uma vez,  Malik olhou maravilhado para Ziran. Embora as Montanhas de Eshra fossem parte do território de Ziran, poucas pessoas de lá sequer chegavam a ver a entrada da famosa cidade. O preço dos documentos para entrar era alto demais e a aprovação desses documentos, muito baixa, sem contar os perigos que espreitavam em Odjubai. Ziran controlava todos os aspectos da vida em Eshra, até mesmo sobre quem vivia em qual vila, mas a cidade de Ziran em si não era feita para o povo de Malik desfrutar.

Mas lá estavam eles, parados ao pé da maior cidade do mundo. Todas as noites passadas amontado com as irmãs sob cobertores comidos por traças, lutando contra os ventos cortantes e os choros lamentosos de pessoas sendo tratadas como animais por todo lado. O medo que ele tinha de nunca mais ver sua cidade natal, que dava calafrios na alma — tudo isso, enfim, valeu a pena.

Na verdade, ele ainda não tinha visto nem mesmo um vestígio das… criaturas que o havia atormentado em Oboure.

Eles estavam a salvo.

Os pensamentos de Malik foram interrompidos pela comoção na fila à direita deles, quando uma carroça surrada, puxada por um burro sarnento, alcançou a plataforma. O velho que a
guiava entregou um amontado de documentos para o soldado que supervisionavam a plataforma enquanto a família do homem espiava nervosa atrás dele. Malik congelou ao reconhecer o
símbolo familiar desenhado na lateral da carroça: os padrões geométricos nativos de Eshra.

O soldado folheou o pequeno amontado de documentos com ponderação. Em seguida, ergueu o cabo da espada e golpeou a cabeça do velho.

— Pessoas de Eshra não, com ou sem documentos!

Pessoas de Eshra não. O mundo flutuou mais uma vez, mas Malik se forçou a permanecer de pé. Eles estavam bem. Os documentos deles diziam que eram três irmãos de Talafri, uma cidade bem perto do limite de Ziran. Contanto que o sotaque não aparecesse, ninguém saberia que também eram de Eshra.

Os gritos da família ressoaram pelo ar quando soldados pegaram o corpo do velho e afastaram a carroça da entrada. No meio do caos, ninguém notou uma pessoa caindo da carroça no chão árido. A criança não era mais velha do que Nadia, ainda assim, todos o ignoraram ao tentar lutar pelo lugar da família dela na fila. O coração de Malik quase se partiu ao meio.

E se fosse Nadia deitada no chão sujo, sem ninguém para ajudá-la? Só de pensar nisso, o peito de Malik se apertou dolorosamente, e os olhos continuavam indo até o menino.

Leila seguiu o olhar de Malik e franziu a testa.

— Não.

Mas Malik já estava indo. Em segundos, ele ajudou o garoto a se levantar.

— Você está bem? — perguntou Malik, conferindo se via algum machucado no menino. A criança o encarou com os olhos vazios afundados em um rosto cansado, e Malik viu o próprio reflexo no escuro profundo dos olhos dele.

Tão rápido quanto um raio, o garoto puxou a bolsa de Malik e mergulhou no meio da multidão. Por muitos segundos, tudo o que ele conseguiu fazer foi encarar, de boca aberta, o lugar onde a criança havia estado.

— Ei!

Amaldiçoando a si mesmo pela ingenuidade, Malik, então, fez o que fazia de melhor: correu.

CAPÍTULO 2

KARINA

O FOCA DANÇANTE era um daqueles estabelecimentos mais antigos e sujos do que tinha o direito de ser, com uma camada de fuligem questionável cobrindo toda superfície visível, e também aos funcionários. Ainda assim, a comida era ótima e o entretenimento, melhor ainda, e foi o que levou Karina ao restaurante próximo à Muralha Externa de Ziran.

Enquanto Aminata se encolhia ao lado dela, Karina manteve os olhos já treinados no músico que comandava a multidão no momento: um bardo  corpulento e triunfante, com um bigode tão perfeitamente enrolado que só poderia ser falso. Aparência a parte, o homem era hábil e, pela forma fácil com que desfilava pelo palco circular no centro do salão, ele sabia disso.

A audiência da noite consistia principalmente de viajantes e comerciantes com os rostos marcados pelos anos caminhando nas implacáveis estradas do deserto. No falatório da multidão, Karina reconheceu kensiya, um idioma  das pessoas de Arkwasi, das fl orestas no norte de Odjubai; t’hoga, o idioma falado na savana das Águas Lestes; e até mesmo algumas palavras em dara-
jat, gritadas para servos assustados de Eshra. Todos os maiores grupos em Sonande estavam representados naquela noite.

Mas, o melhor de tudo: ninguém sabia quem era Karina.

Sentada em almofadas baixas em volta das mesas cobertas por ensopados de feijão e fatias fumegantes de cordeiro, a audiência gritava sugestões ao bardo, cada uma mais obscena que a outra, e cantava desafinadamente todas as músicas que ele tocava. Solstasia fazia até mesmo os mais mesquinhos
abrirem mais as bolsas; tantos ali já passavam da terceira ou quarta bebida da noite, e o sol ainda não tinha nem se posto.

Os olhos do bardo encontraram os de Karina, e ele abriu um enorme sorriso. Ela inclinou a cabeça para o lado e uma inocência angelical se espalhou por seu rosto em resposta à expressão sugestiva e descarada dele.

— Você vai ficar aí parado gastando sua beleza ou vai tocar algo que valha a pena? — ela o desafiou.

Outra gritaria se espalhou pela audiência, e as bochechas escuras do homem coraram. Apesar da aparência nada higiênica, o Foca Dançante era um dos locais mais respeitados em Ziran quando o assunto era música. Apenas os melhores músicos conseguiam conquistar o público de lá.

O bardo continuou a tocar a música estridente que detalhava o caso de amor amaldiçoado entre um espírito solitário e uma pobre escravizada. Karina se recostou na almofada ao examinar o homem. A primeira avaliação dela havia
sido correta: ele era bem talentoso; distorcia a melodia na hora que o humor da audiência mudava e subia o tom no clímax da história. Se ela tivesse que adivinhar, ele provavelmente era Alinhado ao Fogo; esse Alinhamento tinha talento para o drama.

Ajeitando o véu para se assegurar de que nenhum fio de cabelo estivesse fora do lugar, Karina se inclinou na direção da  companheira.

— Você acha que ele passa óleo no bigode todos os dias para ficar tão brilhante?

— Eu acho que estamos aqui há tempo demais — respondeu Aminata, afastando-se do líquido suspeito que cobria a mesa delas.

— Estamos aqui há dez minutos.

— Exatamente.

Karina revirou os olhos, perguntando-se por que esperava qualquer outra resposta da criada. Convencer um peixe a nadar em terra firme seria mais fácil do que convencer Aminata a relaxar por uma única noite.

— É Solstasia, Mina. Vamos aproveitar.

— Podemos pelo menos ir a um lugar que não esteja cheio de pessoas que podem te esfaquear?

Karina começou a retorquir que, tecnicamente, qualquer lugar com pessoas estava cheio de gente que poderia esfaqueá-las, mas o bardo começou uma música que Baba costumava tocar para ela, e uma dor enfadonha, como uma  carreta batendo dentro do crânio, atravessou-a. Apertando bem os olhos fechados, Karina soltou o ar pelos dentes e apertou a beirada da mesa até que farpas cravassem em sua pele.

Aminata franziu a testa, percebendo na mesma hora o que havia causado a enxaqueca.

— Devíamos ir embora antes que piore — sugeriu ela no tom cuidadoso que as pessoas usam sempre que o luto de Karina as deixa desconfortáveis.

— Ainda não.

Esse provavelmente era o último momento de liberdade que teria até o fim do Solstasia. Com enxaqueca ou não, ela não poderia perder a oportunidade.

Aplausos ressoaram pelo restaurante quando o bardo dedilhou a última nota. Ele recolheu as contribuições em uma bolsa de veludo, e então caminhou até a mesa delas e se curvou em uma grande reverência.

— Espero que tenha achado minha apresentação esta noite tão satisfatória quanto achei a sua aparência.

Lutando contra a onda de tontura que costumava acompanhar as enxaquecas, Karina levantou uma sobrancelha para o homem. Talvez também pudesse ter achado a aparência dele satisfatória se tivesse aproximadamente setenta anos. No momento, ela tinha apenas dezessete, e ele a lembrava dos sapos que coaxavam nas fontes do palácio. Os cantos dos lábios se ergueram, mas ela não sorriu.

— Foi impressionante. — O olhar de Karina deslizou até a bolsa de moedas no quadril dele. — Se não se importar com a pergunta, o que planeja fazer com o que ganhou?

O bardo passou a língua pelos lábios.

— Dê-me uma hora e vai descobrir em primeira mão o que posso fazer.

Aminata tentou esconder um riso baixo enquanto Karina respondia:

— Acredito que conheço o lugar perfeito para o seu dinheiro. — E onde seria, minha doce gazela? — perguntou, com um olhar malicioso.

Karina conferiu a palma esquerda dele; sem emblemas, o que significava que ele era um Desalinhado. Esse homem era de algum lugar muito longe dali, da savana das Águas Lestes, talvez.

— No meu bolso. — Karina se inclinou para frente, até que o nariz dela estivesse a centímetros do dele, perto o suficiente para sentir o cheiro da essência do óleo de laranja que ele certamente usava no bigode. — Vou tocar pelo seu dinheiro. Uma música. A audiência decide o ganhador.

Surpresa seguida de irritação surgiu no rosto do bardo. Karina segurou o riso.

— Você sequer tem um instrumento?

— Tenho. Aminata?

Aminata suspirou, mas, obediente, entregou a Karina o estojo de couro que estava em seu colo. O bardo sorriu com desdém quando viu o estado do oud de Karina; uma espécie de alaúde com pequenas rachaduras que marcavam o corpo em forma de pera do instrumento, e os padrões florais que Baba  tinha entalhado no braço já haviam esmaecido em algo irreconhecível há muito tempo. Mas segurar o último presente do pai fez uma onda de tranquilidade preenchê-la, enfraquecendo a dor de cabeça.

— Se eu ganhar — disse Karina, tranquila, ao afinar uma das onze cordas do oud —, fico com todo o dinheiro que ganhou hoje.

— E quando eu ganhar — falou o bardo —, você me dará a honra de chamá-la de minha pelo resto da noite.

Foi preciso usar todo o autocontrole para que ela não deixasse transparecer a ânsia de vômito.

— Combinado. Sob o espírito do Solstasia, vou deixar você escolher a música.

Os olhos do bardo se estreitaram e, então, o sorriso dele se abriu ainda mais.

— A balada de Bahia Alahari.

A dor de Karina pulsou mais uma vez enquanto o coração se apertava. Baba amava essa música.

Recusando-se a deixar que o oponente percebesse como a incomodou, Karina simplesmente disse:

— Depois de você.

A balada de Bahia Alahari era uma canção fúnebre que  contava a história de como a primeira sultana de Ziran lutou contra o  próprio marido, o Rei Sem Rosto, quando ele se juntou ao Império de  Kennoua durante a batalha final da Guerra Faraônica. Em minutos, o público estava com lágrimas escorrendo pelo rosto, muitos em prantos. Ainda assim, uma parte dos clientes, a maioria visivelmente não sendo de Ziran, pareceu não se afetar pela apresentação, e Karina manteve a atenção neles enquanto o oponente dela tocava.

Com a última nota ainda ressoando, o bardo abaixou o oud enquanto a animação estridente do público preenchia o ambiente.

— Sua vez — disse ele, com os olhos perambulando pelo corpo dela como um predador.

Karina deu um passo à frente, colocando as mãos em posição e ignorando os risos pelo pobre estado do instrumento dela.

Sim, o oponente era bom.

Mas ela era melhor.

Rápida demais para alguém a impedir, Karina pulou do palco para cima da mesa diante dela, recebendo uma arfada de surpresa das pessoas que a ocupavam, e bateu a sandália no pé em um ritmo constante que ecoou pelo local. Embora Karina  não estivesse encarando a criada, sabia que Aminata estava batendo palmas junto com ela, com careta e tudo mais. Em segundos, todos no local entraram na música, batendo o que quer que estivessem em mãos contra as mesas.

Abrindo um sorriso tão enorme que deixaria uma hiena com inveja, ela começou a tocar.

Ainda era A balada de Bahia Alahari, mas Karina  modificou a melodia, deixando-a quase irreconhecível. Enquanto o bardo se concentrou no sufocante, ainda que bonito, luto pelo qual a música era conhecida, Karina levou o ritmo ao frenesi, tocando na velocidade normalmente usada em músicas rápidas e dançantes. Elevou a música a um crescendo onde deveria ser branda e tornou penetrante as partes que foram compostas para serem leves. Mesmo com tudo isso, a canção não perdeu o tendencioso pesar pelo qual era famosa; mas era um pesar convertido em energia frenética, o único tipo de pesar que ela conhecia.

Karina cantou o primeiro verso em zirani, o idioma da cidade, girando em torno de si mesma enquanto tocava para que todos pudessem ouvi-la.

No segundo verso, ela cantou em kensiya. Um grito de satisfação veio de um grupo de pessoas de Arkwasi, interagindo com a apresentação pela primeira vez naquela noite. Então ela mudou para t’hoga e voltou para kensiya. Em cada verso, Karina fez questão de colocar os maiores idiomas de Sonande. O único no qual ela não cantou nem mesmo uma estrofe foi darajat. Nenhum
dos tutores que teve considerou o idioma de Eshra importante o suficiente para lhe ensinar, e faltava a ela o incentivo para aprender sozinha.

A animação do público cobriu as últimas notas de Karina. Ela deu um sorriu suave para o bardo, que parecia pronto para jogar o instrumento no chão.

— Eu fico com isso. — Karina agarrou a bolsa dele e a balançou na mão. Deveria ter pelo menos cem dairas ali.

— Eu quero uma revanche! — demandou ele. — Revanche valendo o quê? O que mais você tem a perder?

O rosto se torceu em uma careta de dor quando ele puxou um objeto pesado da bolsa.

— Tenho isto.

Na mão do bardo estava o livro mais antigo que Karina já tinha visto. A capa de couro verde continha marcas de mordidas nas beiradas e o tempo amarelou as páginas com mofo. Quase apagado, o título dizia em zirani: O tomo do querido falecido: um amplo estudo da curiosa forma com que o Império de Kennoua vê a morte.

— O homem que me vendeu isso nem podia ler o título — disse o bardo. — Ele não percebeu que penhorou um resquício verdadeiro dos tempos dos antigos faraós.

Um frio percorreu a coluna de Karina quando ela encarou os glifos de Kennoua gravados na capa do livro. Leitura nunca foi o passatempo preferido dela, e não precisava nem queria um livro velho e empoeirado sobre uma cultura há muito esquecida pela história.

— Se esse livro é tão especial, por que vai apostá-lo?

— Qualquer coisa que vale a pena ter, vale a pena sacrificar. Karina não costumava dispensar um desafio, não importava o prêmio. Com um sorriso que mostrava todos os dentes, desamarrou o oud das costas.

— Mais uma rodada.


“Uma Melodia de Sombras e Ruínas”, escrito pela autora Roseanne A. Brown e traduzido por Solaine Chioro, tem 528 páginas, acabamento em capa dura e foi lançado em 31 de agosto. Compre em até 10x sem juros, com frete grátis para todo o Brasil e brindes exclusivos clicando aqui.

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